06/11/2017

O que pensam os professores brasileiros sobre a tecnologia digital em sala de aula?

Sobrecarga de trabalho, infraestrutura e formação insuficiente freiam uso da tecnologia digital na escola

Fonte: Todos Pela Educação

Mais da metade (55%) dos professores da rede pública brasileira utilizam tecnologia digital regularmente em sala de aula, e 54% deles afirmam que usariam mais esse recurso, desde que isso não implicasse em maior carga de trabalho – um número igual de docentes tem a percepção de que o uso de ferramentas tecnológicas acarreta maior carga de trabalho, e para 45% deles isso aumenta a pressão em suas funções. Além disso, para a maioria dos professores os aspectos limitadores mais frequente para o uso de recursos tecnológicos são a falta de infraestrutura – como poucos equipamentos (66%) e velocidade insuficiente da internet (64%) – e falta de formação adequada – 62% nunca fizeram cursos gerais de informática ou de tecnologias digitais em Educação.

Os dados são da pesquisa “O que pensam os professores brasileiros sobre a tecnologia digital em sala de aula”, iniciativa do movimento Todos Pela Educação em parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Instituto Natura, Itaú BBA, Fundação Telefônica Vivo e Samsung, e estão disponíveis em um hotsite com vídeo explicativo. O estudo, realizado pelo Instituto de Pesquisas DataFolha e pela consultoria Din4mo, ouviu 4 mil professores dos Ensinos Fundamental e Médio e da Educação de Jovens e Adultos (EJA) da rede pública de todo o Brasil no primeiro semestre de 2017. Os resultados revelam que os docentes estão dispostos a usar tecnologia digital em sala de aula e que, havendo ferramentas relevantes para o desenvolvimento do seu trabalho no ambiente escolar e as condições adequadas a esse uso, há um enorme potencial pedagógico a ser desenvolvido por meio dos recursos tecnológicos.

De acordo com Olavo Nogueira Filho, gerente de políticas educacionais do movimento Todos Pela Educação, a pesquisa traz informações importantes para subsidiar governos, secretarias de educação, escolas, terceiro setor e empresas de tecnologia a melhor responderem a um pedido cada vez mais recorrente de muitos estudantes brasileiros: integrar a tecnologia digital ao dia a dia da escola. “Por meio da pesquisa, identificamos que, além dos desafios de infraestrutura já conhecidos, há três principais caminhos para o avanço dessa tecnologia em Educação: a ampliação e a melhora da oferta de formação e apoio específico, a apresentação de propostas que ajudem a rotina de trabalho do professor e um melhor entendimento pelos docentes sobre o potencial de impacto pedagógico da tecnologia”, afirma.

Apesar dos entraves apontados, a maioria deles já se consideram usuários regulares ou avançados dos recursos tecnológicos digitais, como mostra o gráfico abaixo. As principais aplicações são para apresentar informações em classe (46%) pelo menos uma vez por semana e fazer avaliação dos alunos (44%).

Segundo os docentes, a sobrecarga na sua rotina está principalmente relacionada a algumas atividades: seleção de materiais para aulas, aplicação de provas e acompanhamento individual de alunos, como mostra o gráfico abaixo. Há, portanto, espaço para incentivar o uso dos suportes tecnológicos digitais, desde que se considerem ferramentas que contribuam com as atividades inerentes a sua função, como também otimizem a sua rotina diária, sem sobrecarga de trabalho ou aumento de pressão. 

Formação

A falta de oportunidades de formação é apontada como razão para o não uso da tecnologia digital com os alunos por 57% dos professores que dizem nunca usar esse recurso. Apenas 59% dos docentes já fizeram algum curso sobre o uso desse tipo de tecnologia na escola. A capacitação referente a ferramentas mais complexas tem números ainda menores: 28% já fizeram alguma formação específica para uso de softwares e games de Educação e 18%, para o desenvolvimento de aplicativos. As limitações poderiam, portanto, ter seus efeitos minimizados com a oferta de formação de qualidade e também a presença de um profissional de referência em tecnologia digital dentro da escola, uma vez que 42% dos entrevistados tiram dúvidas sobre o uso de tecnologia com a rede de relacionamento pessoal ou junto a colegas professores e 15% afirmam não ter a quem recorrer para pedir auxílio. Apenas 14% recorrem aos coordenadores pedagógicos, os profissionais mais indicados para prestar ajuda aos professores.

O potencial pedagógico

Outro ponto de destaque da pesquisa está na percepção dos professores sobre o impacto do uso da tecnologia digital para o aluno – o que pode ser um fator importante de decisão sobre o seu uso: 34% dos docentes acreditam que o principal impacto positivo é a motivação dos estudantes e apenas 11% veem a melhora no desempenho escolar como dimensão mais relevante. Ainda assim, 96% concorda que, com o uso da tecnologia digital, as habilidades como professor se ampliam, 94%, que incorpora novos métodos de trabalho e 88%, que colabora mais com os colegas de escola.

Para estimular o uso de tecnologias digitais, parece ser essencial ter mais clareza sobre o retorno desse trabalho para o desempenho escolar e desenvolvimento das habilidades dos estudantes.

“Considerando que é no desempenho escolar dos alunos que grande parte dos sistemas brasileiros ancora suas avaliações sobre o trabalho das escolas, e que já existem evidências de que a tecnologia digital pode ser uma ferramenta pedagógica relevante para melhorar a aprendizagem, a pesquisa sugere que ainda há um grande espaço para demonstração aos docentes do potencial desse recurso, de forma a engajá-los no seu uso na medida em que sejam garantidas a formação adequada, a infraestrutura necessária e ferramentas que sejam relevantes para o cotidiano deles e dos estudantes”, afirma Olavo.

Confira mais dados da pesquisa aqui.

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Sobre o Todos Pela Educação – www.todospelaeducacao.org.br

É um movimento da sociedade brasileira, fundado em 2006, que tem como missão engajar o poder público e a sociedade brasileira no compromisso pela efetivação do direito das crianças e jovens a uma Educação Básica de qualidade. Faz isso por meio da produção e divulgação de pesquisas, evidências de impacto e boas práticas; da facilitação e construção de agendas articuladas; e da incidência em políticas, legislação e ações governamentais. Apartidário e plural, congrega representantes de diferentes setores da sociedade.